Arquivo mensal: novembro 2010

Uníssono

Um jovem.
Um bom casamento.
Um trabalho digno.
Um razoável orçamento.
Uma decisão.
Uma fé.
Um dedicado coração.
Um domingo qualquer.
Uma decepção.
Uma palavra dura.
Uma nova desilusão.
Uma enraizada amargura.
Um choro sem lágrimas.
Um ano de silêncio.
Um telefonema.
Um convite.
Uma mesa de bar.
Uma cervejinha.
Uma roda de amigos.
Uma caixa inteirinha.
Uma carona pra casa.
Um bate-boca danado.
Um filme repetido à exaustão.
Uma saudade que não passa.
Uma vida em desconstrução.
Um retorno que fracassa.
Um homem comum agora, mais um.


Autor: Luciano Motta

Notas

Minha filha Luana começou a tocar teclado. Chegou para mim na terça e disse que queria aprender. Tomou lugar diante do instrumento e executou as primeiras notas (e até acordes!) depois de duas aulas.

Um fato me marcou logo de saída: Luana foi às lágrimas depois de insistir em um exercício e não conseguir executá-lo. Ela queria porque queria fazer o exercício com perfeição. Seus dedinhos não atacavam as teclas direito pela miudeza de seus seis anos. Chorou porque teve de parar e ir dormir.

Quase que imediatamente, perguntei a mim mesmo: Quando foi a última vez que chorei por não conseguir executar o que meu Pai me ensinou?

Existe um vazio

Existe um vazio em mim
Vazio oco
Oculto
Com grandes proporções

Vazio não vazio
Guardador de profundos sentimentos
Segredos mistérios charadas

Vazio velado
Recôndito
Trancado a sete chaves
Onde habita toda a minha verdade

Vazio intangível
Flutua
Voa
Dança
Na finitude de minha existência

Tento tocar penetrar
Decifrar seus enigmas
Forasteira do que vejo e ouço
Forasteira de minh’alma

Quero alcançá-lo
Não consigo
Chego perto
Um golpe fatal

Inútil

Terá fim esta Odisseia?
Pobre menina jovem mulher
Inútil me será toda a jornada
Posto que somente em Deus
E no conhecimento de Sua Infinita Essência
Minha verdade será a mim revelada

E o vazio mudará em flor
E serei de flor em flor
Um jardim suspenso
Cultivado pelo Zeloso Jardineiro

Paisagista do meu ser
Poesia e flor serei
Pena nas mãos de Habilidoso Escritor
Rima rica
Rara
Soneto maior
Pura beleza

Hoje sei, Senhor
Sou mais eu
Quando sou Você


Autora: Samira Tavares

Justiça

Brisa leve em meu rosto
Sublima
Sol em cima
Aquece e traz gozo

Paz
É muito mais
É acalanto que refaz
Da correria de ser
Do desenfreio de ter
Do delírio de fazer

Simplicidade
Riqueza na certeza de nada ter
Regalia em poder me ater
E contemplar a glória
Daquele que refez minha história

Mundo louco
Desvairado mundo
Ai de ti que não para
Ai de ti que não chora
Ai de ti que não clama por justiça
Ai de ti que cala
Ai de ti que acumula

Ai de ti, endurecido coração
Que não resplandece
E tem a alma maculada pela religião

Um dia não haverá mais tempo
De habitar na Verdadeira Comunhão
Não existirá alento
Para quem plantou solidão


Autora: Samira Tavares

Bibelô

bibelô novo pra ser usado
ideal que fique destacado
depois junte-se a tantos outros, desgastado
na plataforma fria, vazia, cheia de hipocrisia
onde ninguém se importa com quem está ao lado

bibelô na ativa
aí é o seu lugar
que lindo! é só para nos agradar
começa, termina, as pessoas se animam
importante é que o show tem de continuar

bibelô sufocado
pelo controle exagerado
fraqueza da alma de quem não quer perder o poder
é mais fácil sufocar
do que aprender a crescer

bibelô empoeirado
no interior, ninguém o toca
enfadado por apenas embelezar
tratado como se não tivesse mais nada pra dar
seu conteúdo? que fique guardado

bibelô surtado
acordou pra vida, resgatado
das tensões e frustrações de outrora
seus olhos abertos pro futuro
o fardo agora não é pesado

bibelô renovado
livre da ditadura da aparência
do ativismo exacerbado
despreocupado com o que vão dizer
vivendo o que foi criado pra ser


Em parceria com: Ana Cristina Pina