Arquivo mensal: dezembro 2010

Se queres vencer

Se queres vencer
Lute

Se queres lutar
Esforça-te

Se não tens força
Busque-a

Se queres buscar
Renuncia-te

Se queres renunciar-te
Abra mão

Se queres abrir mão
Continue

Se queres continuar
Caminhe

Se queres caminhar
Prossiga

Se queres prosseguir
Cresça

Se queres crescer
Avance

Se queres avançar
Busque direção

Se queres direção
Escolha viver para Deus

Negue-se a si mesmo
Tome a tua cruz e siga-o


Autora: Luana Toledo

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Saia justa

O menino não lembra bem como tudo começou.

Possivelmente foi quando estava ali pelas barcas, ao lado da mãe, já próximos da bilheteria. Avistou, então, alguns metros adiante, uma mulher alta, as pernas mais longas que já vira. Tudo parecia em câmera lenta: o vestido negro, solto, esvoaçante, o movimento vistoso dos quadris de um lado para o outro.

Os olhos hipnotizados do menino não atentaram para o perigo iminente – e sua cabeça foi de encontro frontal a um poste! Caiu no meio daquela gente toda, a mãe destemperada, aos berros. Teve de encarar o sorriso maroto dos transeuntes, alguns mais perversos, dedos apontando o ridículo. Na tentativa de preservar o filho, a mãe capitalizara ainda mais atenção para o incidente, que deixou marcas: o enorme galo na testa e a lembrança daquele rebolado, agora distante, dobrando a esquina.

O tempo passou, e o menino não podia mais ver uma saia!

De todas as cores e estampas, justas ou largas, curtas ou longas até os tornozelos, de tecido leve ou jeans – para ele não importava. Passasse uma saia, lá ia o menino atrás, disfarçadamente. Podia ser da sua mãe ou da tia do interior serrano, da professora na escola ou da viúva que morava no fim da rua.

Não era o traseiro das mulheres que o fascinava. Fosse talvez o misterioso universo feminino que a idade do menino começava a se aperceber. Uma calça impossibilitaria qualquer descoberta. Não uma saia. Qualquer intempérie ou movimento descuidado e o oculto haveria de ser revelado. Importante dizer que o menino nem matutava sobre isso, apenas perscrutava os enigmas de sua inocente transição etária.

Antes de subir em algum ônibus esperava que uma mulher de saias entrasse à sua frente. Teve um sábado que ficou mais de uma hora aguardando, as madames e as donzelas todas chegando ao ponto de calças ou de bermudas. Até aparecer uma senhora, as anáguas tão grotescas sob a indumentária que faziam rir. Outro dia fugiu uma poodle de saiote, correndo, a coleirinha quicando no solo de terra batida, e a garotinha dona do animal tentando resgatar sua filhote. O menino não titubeou: foi atrás, atento à saia canina, não necessariamente para ajudar.

Era um transtorno, é verdade. A psicologia poderia catalogar mais esse desvio de comportamento: transtorno-obsessivo-por-saias-de-pré-adolescente-pancado. Da mesma linha dos transtornos da moda: bipolar, consumismo compulsivo, stress, histeria, toc toc toc. Todo mundo tem algum desses à sua porta ou já devidamente instalado, à espera do próximo crash particular.

Mas a fixação do menino teve um fim graças ao inusitado.

Em viagem à casa da tia, sempre com a mãe a tiracolo, depois de deixarem a rodoviária da cidade alta, um vento muito forte acometeu a todos no calçadão. As pessoas tremiam sob seus casacões, sobretudos e calças. Mulher nenhuma se atrevia a usar saias naquele frio tão intenso e peculiar.

Pois o menino avistou, na grande escadaria da praça, um vestido de um marrom incomum, envelhecido, em vagarosa subida por aqueles degraus de concreto. O vento impetuoso, agressivo, impedia que seus olhos se mantivessem abertos, não permitia detalhes. Cabeça inclinada para baixo, mão esquerda sobre a face escudando a turbulência, o menino empregava grande esforço para não perder a única saia à vista.

Então, no afã de aproximar-se de seu objeto de admiração, seus olhos um pouco abaixo, em transe, uma lufada resoluta levantou tudo. Tudo! Estupefato, o menino arregalou-se em um primeiro momento, paralisado, aos poucos tomado de perplexidade, depois estranhamento e, finalmente, um pavor encrespante por aquela terrível visão! De pronto largou a mãe, a mochila, a sanidade, e partiu destrambelhado para longe daquela veste amarronzada, do medonho que sob ela se escondia. Sua mãe, coitada, atrás do filho, atabalhoada com a partida súbita.

O menino teve uma certeza: nunca, nunca, nunca olhar de novo para uma saia. E cumpriu a promessa. Pelo menos até a puberdade chegar e, enfim, entender envergonhado seu grave equívoco naquela tarde de infortúnio na serra.

A saia marrom, de fato, era o hábito de um desleixado frade.


Autor: Luciano Motta

monoliticidade

ruas monótonas
monocromáticas
tão vívidas quanto um fax
paleta de brancos, de pretos e cinzas
e o amarelo desbotado de um táxi

esquinas monódicas
monotemáticas
emboca o artista seu sax
em sonoridades melancólicas
de uma miséria assaz

praças monumentos
monárquicos
berço esplêndido de tanta gente
terras de pombos e plebes
e uma nobreza poente

tempos mudos
monossilábicos
geração de uma angústia premente
intransponível faixa dupla contínua
do asfalto presente


Autor: Luciano Motta