Arquivo mensal: junho 2011

Janela

Era a primeira vez que andaria de ônibus sem os pais. Tinha uns nove para dez anos. Sempre fora levado para a escola de carro, mas desta vez seria por sua própria conta. Para piorar, ainda teria de acompanhar o irmão dois anos mais novo.

A mãe deu as instruções de praxe, inúmeras. O garoto ouvia tudo; sua atenção, porém, voltada para a rua, um pânico de não descer no lugar certo, de perder o irmão, de esquecer a mochila no banco do ônibus, de… Bem, perder o irmão até que não seria de todo ruim.

Chegaram ao ponto por volta das sete da manhã. A mãe nutria esperanças de que tudo ia dar certo, seu coração aflito e acelerado. Como não tinha outro jeito, fez sinal para o ônibus e entraram. O menino viu pelo vidro traseiro as mãos maternas em aceno. Parecia um “até nunca mais”.

Lotação. Foi nesse dia que entendeu o porquê desse nome. Pelo menos conseguiu arrumar dois lugares no fundo. Passado o choque inicial dos primeiros minutos, olhou para o caçula e viu que ele não estava nem aí, só curtia a viagem. Fazia cara de quem estava se divertindo.

O ônibus cada vez mais apinhado de gente e aquele drama era todo dele, o mais velho, seus olhinhos fixos na janela para não perder o ponto de descida. Já estamos quase lá. Cutucou o irmão assim que o ponto apareceu adiante. Vem comigo, vamos indo.

Respirou fundo e encarou o corredor, segurando nos apoios e às vezes nos braços das pessoas, até alcançar a porta de saída. Pediu ao motorista para descer na próxima parada. O veículo então parou. Parecia que estava para acabar aquele sufoco. Parecia. Ao tempo em que pisava as escadas, olhou para trás, mas não viu o irmão. Cadê ele?

Desespero total. Batimentos nos ouvidos. Espera um pouquinho, motorista! As pessoas em volta raivosas, impacientes, apressadas pelo labor, atrasadas por dois pirralhos. Espera mais um pouco! O rosto da mãe lhe vinha à mente, as explicações já iam se formulando. Arrependeu-se de desejar perder o irmão. As lágrimas prestes a verter.

Não demorou e o irmãozinho apareceu. Aqueles segundos como horas de angústia anestesiadas pela graça do alivio. E o guri com aquela cara de bobo alegre intacta, seu deslumbramento quase uma provocação. Puxou-o pelo braço e desceram do ônibus. Brigou, gesticulou, reclamou por ele não ter vindo logo atrás. Sentiu pela primeira vez o peso da responsabilidade.

Sabe qual a resposta que o mais novo deu? Eu fiquei lá, olhando pela janela…


Autor: Luciano Motta

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