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falando de saudade…

Saudade

não diga que isso é saudade
essa mensagem de texto
essas palavras bem combinadas no chat
esses pixels amestrados na tela
sentimentos em cena
isso não é saudade

não, não diga que está morrendo
de saudade
sem nunca querer velar o corpo
da ausência

saudade, saudade mesmo
trapaceia o relógio
quebra o porquinho
e percorre quaisquer distâncias

fale de saudade
mas evita intermediários

pelo teclado
não se efetua o abraço
nem se é aquecido pela presença daquele
por quem o coração tanto dói

pela tela
não se respira o ar
nem se fitam os olhos…
onde andam seus olhos?

saudade é saúde
é sinal de que se está vivo
ainda que morrendo aos poucos
até se respirar o encontro

Autor: Luciano Motta

* Este poema foi selecionado e publicado na Antologia de textos em homenagem aos 100 anos de Vinicius de Moraes – Prêmio UFF de Literatura 2013. Niterói: Editora da UFF, 2013, p.42-43.

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Nove graus em dezembro

A incompletude me persegue
O quase, o inexato
Nasci em dia bissexto
Nove horas de parto
Três quilos novecentos gramas
Dezenove meses para andar
Nove dentes na boca
Nenhuma razão para falar

Ir-regular é o que me move
O que me incentiva
Quatro vírgula nove, cinco vírgula nove
Genialidade incompreendida

O amor me descabe
Me escangalha
As estações

É quase fim de ano na vinte e nove de setembro
Ferve o asfalto, abafa o vento
Pois hoje são nove anos de inverno
Tanto frio aqui dentro
E você apenas
Té+

Por ora
Noves fora
Nada


Autor: Luciano Motta

Poesia matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.


Autor: Millôr Fernandes

Texto extraído do livro “Tempo e Contratempo”, Edições O Cruzeiro – Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

Do site Releituras.

Síndrome do coração vazio

Será verdade? Essa tal liberdade de sentimentos?
Tão estranho pra mim, um devaneio
Um não esperado forasteiro
que se apegou ao meu peito,
e me disse com jeito
-Agora sou só eu…
eu só, e por enquanto
não tem jeito.
Um momento inédito na vida
É tão estranho pra mim…
Se instalou, me pegou desprevenida
e me deixou pasma com a paz que me invadiu…
Sinceramente nunca pensei em algo assim,
Por muito tempo fiquei fora de mim…
Um momento comigo, aqui dentro assim
me fez pensar…
Há quanto tempo não fico só, eu e o meu coração?

Só espero que não dure muito tempo não…


Autora: Rosiane do blog Detalhes

Uníssono

Um jovem.
Um bom casamento.
Um trabalho digno.
Um razoável orçamento.
Uma decisão.
Uma fé.
Um dedicado coração.
Um domingo qualquer.
Uma decepção.
Uma palavra dura.
Uma nova desilusão.
Uma enraizada amargura.
Um choro sem lágrimas.
Um ano de silêncio.
Um telefonema.
Um convite.
Uma mesa de bar.
Uma cervejinha.
Uma roda de amigos.
Uma caixa inteirinha.
Uma carona pra casa.
Um bate-boca danado.
Um filme repetido à exaustão.
Uma saudade que não passa.
Uma vida em desconstrução.
Um retorno que fracassa.
Um homem comum agora, mais um.


Autor: Luciano Motta