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Equilibrista

balança

balança feito um bêbado
sonhador
mas não está num botequim
apenas encara outro fim
de expediente
o corredor do coletivo
é sua corda

bamba

esperança

esperança de um trôpego
trabalhador
tenta pôr em ordem
os desatinos de ontem
descrente
sua vida é um passivo
que não concorda

descamba


Autor: Luciano Motta

Engarrafamentos

Fim de tarde daqueles de inverno. O vento corta o rosto com vontade. Um feixe preguiçoso de sol faz das nuvens suas cobertas. Rush hour.

Dispara do escritório para o terminal rodoviário em marcha atlética com obstáculos: carros, buracos na calçada, na rua, ambulantes, gente, muita gente. Gente para todos os lados. Gente! As filas ziguezagueiam das baias até o corredor central, como afluentes a desembocar em um grande e terrível aglomerado de rostos desanimados, raladores anônimos de cada dia que suspiram com a passividade de um armento: Tem que esperar né, fazer o quê?

Mergulha na multidão e sobe contra o fluxo até a nascente da fila. Vê, aborrecido, que não há ônibus. Aliás, não há ônibus algum. Só gente. Só filas. Só impaciência. Desiste do terminal e segue pela via ao encontro dos coletivos à distância. Tudo parado nos dois sentidos da avenida. Nada com rodas se move, nem aqueles motoqueiros suicidas. Somente uns bravos trabalhadores se dispõem a uma caminhada pela escuridade gelada e vil, pequenas formigas carregando um peso maior do que podem suportar. Piscantes luzes vermelhas, amarelas, brancas irritam a vista cansada e incrédula. Um pouco mais afortunados, embora igualmente paralisados, motoristas hibernam em seus carros de vidros fechados, quatro lugares vagos reservados para si mesmos.

625. Lá está a lotação. Passageiros disputam centímetros de espaço, como que metidos em engradados, empilhados, envasados de monotonia e cansaço. Tum tum. Bate. Tum tum tum. Bate com mais força. O trocador o encara fulminante: Vai ficar aonde, no teto? Mas o motorista tem compaixão e abre a porta traseira. Com elasticidade e muito sacrifício, alcança a roleta. Puxa do bolso as moedas contadas, mas hesita. Vou ou não vou? Olha de novo à sua volta, olha para fora, olha adiante através de seu reflexo na janela suada de frio. Tudo como dantes. Melhor se embolar ali, pelo menos está mais quentinho.

Licença, licença… Alcança uma clareira no meio do ônibus. Ao lado, de pé, uma senhora com uma bolsa gigantesca incomoda o passageiro à sua frente. Do outro, se escora na barra de apoio um homem de meia idade, face marcada pelo labor de sua apenas existência.

Essa bodega de ônibus que não anda!!!

Mas finalmente anda. Uns parcos metros. E para. Anda mais um pouco. E para. É de propósito pra irritar, só pode ser. Observa que a avenida à esquerda começa a fluir, também caminho para casa, naquela hora praticamente uma rota de fuga do caos. Outros tantos veículos se apressam em ir naquela direção, menos este 625. Imediatamente se instaura um burburinho indignado. Todos comentam a falta de jogo do motorista só porque aquela via não era da linha do ônibus. E tome xingamentos, protestos! Um sujeito de boné mais exaltado maquina algo sinistro, mas fica no esboço, contido por outros passageiros. O condutor lá, inerte, indiferente, apenas cumpre seu expediente.

Os pensamentos vão longe: a mulher o espera, conta de luz atrasada na mão, barrigão de oito meses, Junior hiperativo pulando no sofá. Cerra com força os olhos, e se arrepia todo! Não sabe bem se o que lhe eriçou os pelos foi a lufada exterior de uma das janelas abertas ou o vislumbre alentador do seu lar, doce lar.

Essa bodega de ônibus que não anda!!!

O pé-sujo da esquina o atrai. Poderia tomar umas, fugir daquele reme-reme danado, encarar a mulher já chapado, dopado pela bebedeira. A enxaqueca depois é melhor do que a ladainha de sempre.

No ímpeto de saltar daquela grotesca lata de sardinha sobre rodas, avista ao lado do bar uma igrejinha evangélica. O obreiro na porta, camisa branca, mangas compridas, calça tergal. Lá dentro uns poucos irmãos, cantando animados, pandeiro na mão. Lembrou da mãe, crente fervorosa, presença cativa nos cultos de oração. Não deixava de chamá-lo para ir com a nora e os netos, mas dava umas desculpas, escapulia para ver as vitrines do shopping ou para assistir o jogo do seu time quase rebaixado à segunda divisão. Ah! mudaria alguma coisa?

O sujeito de boné subitamente desce do coletivo aos atropelos, pés no asfalto frio, urro de revolta. Parece ter tido a mesma ideia sobre o bar, onde adentra com naturalidade e pede uma birita.

Do lugar à sua frente levanta um camarada afoito, que abandona o veículo e se une ao pinguço do bar da esquina. Antes de alguém pensar, logo ocupa o assento vago. Estica as pernas. Confere as horas: quinze para as oito. Respira fundo. Murmura. Afunda na poltrona rasgada, cabeça no metal gelado. O coletivo inerte. A alma desassossegada. O amanhã acondicionado.

Essa bodega de vida que não anda!!!


Autor: Luciano Motta