Arquivo da categoria: contos

A estrela e o lápis

Estrela cadente

Uma história criada por Luana Pina e Rebeca Arã.

Era uma vez uma estrela cadente que caiu. Mas em que lugar? Ela caiu em uma casa.

Dentro da casa morava a mãe e a filha. O pai morreu, e foi muito triste. Mas estamos falando da estrela. A filha viu um lápis diferente em cima da sua mesa, e perguntou: “Mãe, a senhora comprou um lápis novo?”

A mãe respondeu: “Não, filha.”

A filha disse: “Tem um lápis diferente em cima da mesa, vem ver!”

“Que lápis lindo, filha. Foi você que comprou?”

“Não, mãe. Não fui eu não!”

A filha foi pra escola. Todos elogiaram o lápis dela, dizendo: “Que lindo! Que bonito! Adorei!”

Ela fazia pedidos, e se realizavam todos os desejos. Pensava que era mágica.

Um dia, o lápis, que ela achava diferente, disse: “Eu sou uma estrela cadente.” Ela não entendeu, mas a estrela disse que caiu na casa dela bem em cima de um lápis.

Ela começou a acreditar e disse para a mãe: “Mãe, não tem aquele lápis? Ele falou comigo.”

“Que nada! Lápis não fala!”

“Tá bom, você é que não acredita.”

Nunca contou pra ninguém. E morreu. O lápis nunca mais foi encontrado.

Fim!

. . .

Essa história foi escrita por minha filha Luana, de 8 anos, junto com sua amiga Rebeca, um pouco mais velha do que ela. Foi mais ou menos aos 8 anos que comecei a escrever minhas primeiras histórias. Fiquei muito feliz pela criatividade da minha filha, e então quis registrar seu pequeno conto aqui no blog.

Janela

Era a primeira vez que andaria de ônibus sem os pais. Tinha uns nove para dez anos. Sempre fora levado para a escola de carro, mas desta vez seria por sua própria conta. Para piorar, ainda teria de acompanhar o irmão dois anos mais novo.

A mãe deu as instruções de praxe, inúmeras. O garoto ouvia tudo; sua atenção, porém, voltada para a rua, um pânico de não descer no lugar certo, de perder o irmão, de esquecer a mochila no banco do ônibus, de… Bem, perder o irmão até que não seria de todo ruim.

Chegaram ao ponto por volta das sete da manhã. A mãe nutria esperanças de que tudo ia dar certo, seu coração aflito e acelerado. Como não tinha outro jeito, fez sinal para o ônibus e entraram. O menino viu pelo vidro traseiro as mãos maternas em aceno. Parecia um “até nunca mais”.

Lotação. Foi nesse dia que entendeu o porquê desse nome. Pelo menos conseguiu arrumar dois lugares no fundo. Passado o choque inicial dos primeiros minutos, olhou para o caçula e viu que ele não estava nem aí, só curtia a viagem. Fazia cara de quem estava se divertindo.

O ônibus cada vez mais apinhado de gente e aquele drama era todo dele, o mais velho, seus olhinhos fixos na janela para não perder o ponto de descida. Já estamos quase lá. Cutucou o irmão assim que o ponto apareceu adiante. Vem comigo, vamos indo.

Respirou fundo e encarou o corredor, segurando nos apoios e às vezes nos braços das pessoas, até alcançar a porta de saída. Pediu ao motorista para descer na próxima parada. O veículo então parou. Parecia que estava para acabar aquele sufoco. Parecia. Ao tempo em que pisava as escadas, olhou para trás, mas não viu o irmão. Cadê ele?

Desespero total. Batimentos nos ouvidos. Espera um pouquinho, motorista! As pessoas em volta raivosas, impacientes, apressadas pelo labor, atrasadas por dois pirralhos. Espera mais um pouco! O rosto da mãe lhe vinha à mente, as explicações já iam se formulando. Arrependeu-se de desejar perder o irmão. As lágrimas prestes a verter.

Não demorou e o irmãozinho apareceu. Aqueles segundos como horas de angústia anestesiadas pela graça do alivio. E o guri com aquela cara de bobo alegre intacta, seu deslumbramento quase uma provocação. Puxou-o pelo braço e desceram do ônibus. Brigou, gesticulou, reclamou por ele não ter vindo logo atrás. Sentiu pela primeira vez o peso da responsabilidade.

Sabe qual a resposta que o mais novo deu? Eu fiquei lá, olhando pela janela…


Autor: Luciano Motta

Saia justa

O menino não lembra bem como tudo começou.

Possivelmente foi quando estava ali pelas barcas, ao lado da mãe, já próximos da bilheteria. Avistou, então, alguns metros adiante, uma mulher alta, as pernas mais longas que já vira. Tudo parecia em câmera lenta: o vestido negro, solto, esvoaçante, o movimento vistoso dos quadris de um lado para o outro.

Os olhos hipnotizados do menino não atentaram para o perigo iminente – e sua cabeça foi de encontro frontal a um poste! Caiu no meio daquela gente toda, a mãe destemperada, aos berros. Teve de encarar o sorriso maroto dos transeuntes, alguns mais perversos, dedos apontando o ridículo. Na tentativa de preservar o filho, a mãe capitalizara ainda mais atenção para o incidente, que deixou marcas: o enorme galo na testa e a lembrança daquele rebolado, agora distante, dobrando a esquina.

O tempo passou, e o menino não podia mais ver uma saia!

De todas as cores e estampas, justas ou largas, curtas ou longas até os tornozelos, de tecido leve ou jeans – para ele não importava. Passasse uma saia, lá ia o menino atrás, disfarçadamente. Podia ser da sua mãe ou da tia do interior serrano, da professora na escola ou da viúva que morava no fim da rua.

Não era o traseiro das mulheres que o fascinava. Fosse talvez o misterioso universo feminino que a idade do menino começava a se aperceber. Uma calça impossibilitaria qualquer descoberta. Não uma saia. Qualquer intempérie ou movimento descuidado e o oculto haveria de ser revelado. Importante dizer que o menino nem matutava sobre isso, apenas perscrutava os enigmas de sua inocente transição etária.

Antes de subir em algum ônibus esperava que uma mulher de saias entrasse à sua frente. Teve um sábado que ficou mais de uma hora aguardando, as madames e as donzelas todas chegando ao ponto de calças ou de bermudas. Até aparecer uma senhora, as anáguas tão grotescas sob a indumentária que faziam rir. Outro dia fugiu uma poodle de saiote, correndo, a coleirinha quicando no solo de terra batida, e a garotinha dona do animal tentando resgatar sua filhote. O menino não titubeou: foi atrás, atento à saia canina, não necessariamente para ajudar.

Era um transtorno, é verdade. A psicologia poderia catalogar mais esse desvio de comportamento: transtorno-obsessivo-por-saias-de-pré-adolescente-pancado. Da mesma linha dos transtornos da moda: bipolar, consumismo compulsivo, stress, histeria, toc toc toc. Todo mundo tem algum desses à sua porta ou já devidamente instalado, à espera do próximo crash particular.

Mas a fixação do menino teve um fim graças ao inusitado.

Em viagem à casa da tia, sempre com a mãe a tiracolo, depois de deixarem a rodoviária da cidade alta, um vento muito forte acometeu a todos no calçadão. As pessoas tremiam sob seus casacões, sobretudos e calças. Mulher nenhuma se atrevia a usar saias naquele frio tão intenso e peculiar.

Pois o menino avistou, na grande escadaria da praça, um vestido de um marrom incomum, envelhecido, em vagarosa subida por aqueles degraus de concreto. O vento impetuoso, agressivo, impedia que seus olhos se mantivessem abertos, não permitia detalhes. Cabeça inclinada para baixo, mão esquerda sobre a face escudando a turbulência, o menino empregava grande esforço para não perder a única saia à vista.

Então, no afã de aproximar-se de seu objeto de admiração, seus olhos um pouco abaixo, em transe, uma lufada resoluta levantou tudo. Tudo! Estupefato, o menino arregalou-se em um primeiro momento, paralisado, aos poucos tomado de perplexidade, depois estranhamento e, finalmente, um pavor encrespante por aquela terrível visão! De pronto largou a mãe, a mochila, a sanidade, e partiu destrambelhado para longe daquela veste amarronzada, do medonho que sob ela se escondia. Sua mãe, coitada, atrás do filho, atabalhoada com a partida súbita.

O menino teve uma certeza: nunca, nunca, nunca olhar de novo para uma saia. E cumpriu a promessa. Pelo menos até a puberdade chegar e, enfim, entender envergonhado seu grave equívoco naquela tarde de infortúnio na serra.

A saia marrom, de fato, era o hábito de um desleixado frade.


Autor: Luciano Motta

Engarrafamentos

Fim de tarde daqueles de inverno. O vento corta o rosto com vontade. Um feixe preguiçoso de sol faz das nuvens suas cobertas. Rush hour.

Dispara do escritório para o terminal rodoviário em marcha atlética com obstáculos: carros, buracos na calçada, na rua, ambulantes, gente, muita gente. Gente para todos os lados. Gente! As filas ziguezagueiam das baias até o corredor central, como afluentes a desembocar em um grande e terrível aglomerado de rostos desanimados, raladores anônimos de cada dia que suspiram com a passividade de um armento: Tem que esperar né, fazer o quê?

Mergulha na multidão e sobe contra o fluxo até a nascente da fila. Vê, aborrecido, que não há ônibus. Aliás, não há ônibus algum. Só gente. Só filas. Só impaciência. Desiste do terminal e segue pela via ao encontro dos coletivos à distância. Tudo parado nos dois sentidos da avenida. Nada com rodas se move, nem aqueles motoqueiros suicidas. Somente uns bravos trabalhadores se dispõem a uma caminhada pela escuridade gelada e vil, pequenas formigas carregando um peso maior do que podem suportar. Piscantes luzes vermelhas, amarelas, brancas irritam a vista cansada e incrédula. Um pouco mais afortunados, embora igualmente paralisados, motoristas hibernam em seus carros de vidros fechados, quatro lugares vagos reservados para si mesmos.

625. Lá está a lotação. Passageiros disputam centímetros de espaço, como que metidos em engradados, empilhados, envasados de monotonia e cansaço. Tum tum. Bate. Tum tum tum. Bate com mais força. O trocador o encara fulminante: Vai ficar aonde, no teto? Mas o motorista tem compaixão e abre a porta traseira. Com elasticidade e muito sacrifício, alcança a roleta. Puxa do bolso as moedas contadas, mas hesita. Vou ou não vou? Olha de novo à sua volta, olha para fora, olha adiante através de seu reflexo na janela suada de frio. Tudo como dantes. Melhor se embolar ali, pelo menos está mais quentinho.

Licença, licença… Alcança uma clareira no meio do ônibus. Ao lado, de pé, uma senhora com uma bolsa gigantesca incomoda o passageiro à sua frente. Do outro, se escora na barra de apoio um homem de meia idade, face marcada pelo labor de sua apenas existência.

Essa bodega de ônibus que não anda!!!

Mas finalmente anda. Uns parcos metros. E para. Anda mais um pouco. E para. É de propósito pra irritar, só pode ser. Observa que a avenida à esquerda começa a fluir, também caminho para casa, naquela hora praticamente uma rota de fuga do caos. Outros tantos veículos se apressam em ir naquela direção, menos este 625. Imediatamente se instaura um burburinho indignado. Todos comentam a falta de jogo do motorista só porque aquela via não era da linha do ônibus. E tome xingamentos, protestos! Um sujeito de boné mais exaltado maquina algo sinistro, mas fica no esboço, contido por outros passageiros. O condutor lá, inerte, indiferente, apenas cumpre seu expediente.

Os pensamentos vão longe: a mulher o espera, conta de luz atrasada na mão, barrigão de oito meses, Junior hiperativo pulando no sofá. Cerra com força os olhos, e se arrepia todo! Não sabe bem se o que lhe eriçou os pelos foi a lufada exterior de uma das janelas abertas ou o vislumbre alentador do seu lar, doce lar.

Essa bodega de ônibus que não anda!!!

O pé-sujo da esquina o atrai. Poderia tomar umas, fugir daquele reme-reme danado, encarar a mulher já chapado, dopado pela bebedeira. A enxaqueca depois é melhor do que a ladainha de sempre.

No ímpeto de saltar daquela grotesca lata de sardinha sobre rodas, avista ao lado do bar uma igrejinha evangélica. O obreiro na porta, camisa branca, mangas compridas, calça tergal. Lá dentro uns poucos irmãos, cantando animados, pandeiro na mão. Lembrou da mãe, crente fervorosa, presença cativa nos cultos de oração. Não deixava de chamá-lo para ir com a nora e os netos, mas dava umas desculpas, escapulia para ver as vitrines do shopping ou para assistir o jogo do seu time quase rebaixado à segunda divisão. Ah! mudaria alguma coisa?

O sujeito de boné subitamente desce do coletivo aos atropelos, pés no asfalto frio, urro de revolta. Parece ter tido a mesma ideia sobre o bar, onde adentra com naturalidade e pede uma birita.

Do lugar à sua frente levanta um camarada afoito, que abandona o veículo e se une ao pinguço do bar da esquina. Antes de alguém pensar, logo ocupa o assento vago. Estica as pernas. Confere as horas: quinze para as oito. Respira fundo. Murmura. Afunda na poltrona rasgada, cabeça no metal gelado. O coletivo inerte. A alma desassossegada. O amanhã acondicionado.

Essa bodega de vida que não anda!!!


Autor: Luciano Motta